A Feira do Livro do Porto 2026 partiu do objeto que lhe dá nome para visitar dimensões paralelas que se relacionam com o livro e dele retiram inspiração. Ao longo de mais de 200 sessões, a programação, idealizada e concretizada pela dramaturga e atriz Teresa Coutinho, foi em busca dessas “riquezas fugidias” de que fala Inês Lourenço, poeta homenageada desta edição, no verso que lhe serviu de mote, retirado do poema Epitáfio para um corpo.
Entre 21 de agosto e 6 de setembro, houve lugar a ciclos de conversas, mesas redondas e espetáculos. Promoveram-se concertos, ciclos temáticos, apresentações de livros e exposições. Pisaram-se novos caminhos e descobriram-se novos formatos, sempre mantendo tradições, como a sessão especial do Quintas de Leitura de João Gesta ou a atribuição da Tília de Homenagem, enquadrada numa programação dedicada à obra e vida de Inês Lourenço.
Dentro das novidades, destacam-se as mais de 80 horas de programação infantojuvenil, que assumiu, este ano, um relevo sem precedentes com direito a caderno próprio composto pela listagem das sessões e uma série de atividades para por os mais novos a criar, desenhar e montar. Também a Dramaturgia subiu ao palco num novo ciclo dedicado inteiramente a este ofício literário onde se discutiram as carreiras de figuras como a dramaturga e encenadora espanhola Angélica Liddell, o cineasta português João Canijo e o tradutor e ensaísta portuense Paulo Eduardo Carvalho. Mas a inovação não se cingiu aos limites dos Jardins do Palácio de Cristal, fazendo nascer no mítico Pinguim Café os After-Hours da Feira, uma programação própria que prolongou o evento noite dentro, entre o convívio e as letras.
Nos espetáculos, o Labirinto de David Marques aliou o momento de lançamento de um livro à festa de DJ e às artes performativas. No ciclo de conversas, salas cheias assistiram ao diálogo entre a escritora e investigadora Tatiana Salem Levy e a antropóloga Leonor Rosas sobre as interseções entre a criação literária e a violência de género; entre a poeta e historiadora Ana Paula Tavares e a poeta e jornalista Inês Fonseca Santos sobre memória coletiva e identidade; ou, ainda, entre o filósofo e professor universitário Viriato Soromenho-Marques e a ensaísta e professora catedrática Fátima Vieira sobre a sempre ténue linha que separa a utopia e a distopia. Nas mesas redondas, uma das sessões mais concorridas foi a do jornalista Miguel Carvalho, com o antigo ministro da Educação João Costa, para discutir a ascensão global dos populismos.
Noutros formatos, o público aderiu em peso à Hora de Ponta da Fonoteca Municipal do Porto, já bastante popular fora da Feira, para escutar e conhecer nova música em conjunto, e aos clubes de leitura promovidos pela Livraria Aberta – o único espaço livreiro exclusivamente queer em Portugal. Já o ciclo de performance e bailado “Do timbre não o fundo, mas a fenda”, inspirado no universo literário da Inês Lourenço, trouxe comoção à Capela Carlos Alberto nos vários fins de semana da Feira.
No fim, os 17 dias de Feira foram tão efémeros como “os sentidos / da água corrente, da pedra submersa, do arder da lenha, do som de passos na areia” a que Inês Lourenço “[chamou] alma”. Felizmente, a expectativa é de que, para o ano, a Feira possa continuar a sua procura por estas “riquezas fugidias”.